...

ARMIA ESCOBAR

Autor: JOÃO DENYS ARAÚJO

Uma mulher centenária, educadora, artista, freira, acima e além do seu tempo. Gaúcha nascida em São Borja (1919), cidadã do mundo, que adotou o Recife como sua cidade nos anos 1960 para marcar definitivamente a cultura, a educação popular, a arte e a comunicação social com um ideário humanista e múltiplos meios. Visionária. Antes de todas as ondas, modas e tendências, insistia na transculturalidade, na transdisciplinaridade, no uso dos meios mais modernos e humanos de ensinar e revolucionar a vida das pessoas com o teatro, com o lúdico, com a criatividade. Boneco e alfabetização, títeres e saúde, formas animadas e cidadania, circo e vida, artesanato e sustentabilidade, pão e trabalho, palhaço e comunicação total, teatro e multimídia, animação cultural e transformação social.

Para tanto, sua intuição artística e religiosa necessitou de um amplo e flexível lastro formativo que a Congregação das Irmãs de Santa Doroteia facilitou. Na Fordham University (New York, USA) bacharelou-se em Ciências da Educação. Cursou Design na Rhode Island School of Design, também nos Estados Unidos. Na Escócia, fez mestrado em Comunicação na Thomson Foudation Television School, em Glasgow. Ainda fez curso de Comunicação na Universidad del Salvador, em Buenos Aires, além de estágios em museus da Itália, França, Inglaterra, Espanha e Estados Unidos.

Madre Escobar, como é conhecida, foi uma das fundadoras do Centro Educativo de Comunicação Social do Nordeste – CECOSNE, em 1968, a princípio, como órgão de extensão da Faculdade de Filosofia do Recife – FAFIRE. Nos anos 1970 foi uma das idealizadoras e criadoras do Curso de Comunicação Social da Universidade Federal de Pernambuco - UFPE. No CECOSNE, Escobar criou o TEATRONECO, o único grupo profissional de teatro de bonecos de Pernambuco a pagar seus artistas para aprender, produzir espetáculos e ser uma forte presença política, seja na Associação Brasileira de Teatro de Bonecos – ABTB, seja na União Internacional de Marionetistas – UNIMA. A paixão de Escobar pelo Boneco, pelas formas animadas, pelo Circo e pela figura do Palhaço fez dela uma pioneira a promover a humanidade e a artisticidade de crianças, jovens e educadores por mais de meio século.

Intelectual refinada, com os pés e as mãos fincados nos mais ousados projetos, sempre pensou grande com os pequenos, com os marginalizados, com os pobres. Artista visual e cênica, levou para o mundo nossos bonecos, espetáculos e jovens artistas a participar de festivais no Canadá, Portugal, Espanha, França e Itália.

Seu amor pela Arte/Educação foi sua genuína religião. Suas incessantes pesquisas com a matéria criativa e com o manejo didático-pedagógico, em sintonia com o ideário de Johan Heinrich Pestalozzi (1746-1827), Dom Hélder Câmara (1909-1999) e Paulo Freire (1921-1997) fizeram dela uma criadora de novos métodos globais de ensino que culminariam na Universidade Popular Dom Hélder Câmara que infelizmente não chegou a se concretizar completamente e que necessita ser investigada e renascida.

Fina e delicada desenhista, manipulava os bonecos com a mesma leveza com que manipulava canetas, pinceis em suaves cores. Em 1995, realizou seu último projeto: Arraial Intercultural de Circo do Recife - ARRICIRCO. No seu livro O circo dos anjos (1997), também por ela ilustrado, Madre Escobar faz suas reflexões sobre a pedagogia do circo articuladas com fragmentos bíblicos bem como resume sua prática educativa com seus anjos de carne e osso: crianças e jovens de comunidades do Recife.

A ela, Hermilo Borba Filho (1917-1976), outro amante e estudioso do Mamulengo, um dos responsáveis pelo moderno teatro brasileiro, dedica uma bela de suas Louvações. Eis um excerto:

Louvo em Madre Escobar a saúde do corpo e a saúde da alma, sua abertura para o mundo, sua fraternidade, sua constante alegria, que é sinal franco e claro de saúde, e esse otimismo contagiante de que é possuidora, sinal por outro lado de uma crença que nela não se formou por hábito, mas organicamente, que nela é como o ar que respira ou o alimento que come, uma crença que a fez ser aquilo que é: uma mulher forte, sem cavilações, sem odor de santidade, mas com a santidade inata a todo o seu ser que pulsa pelo Criador e pelas criaturas. Outro dia ela esteve lá em casa com outros amigos, convidando-me para participar do Festival de Mamulengos: era uma manhã chuvosa antes que chegasse, e ao chegar era uma esplêndida manhã luminosa e brilhante, com o seu riso tão fino e tão puro. Ao sair – ao saírem – deixou-me a impressão de um finíssimo raio colorido sobre um desenho de Portinari, à frente do qual se sentara, e que é uma menina tão clara como clara é a minha louvada amiga Escobar.

...

ANGEL VIANNA

Autor: MARIA ALICE POPPE

Angel-mineira, Angel-árabe, Angel-criança, Angel-filha, Angel-bailarina, Angel-mestra, Angel-movimento, Angel-mãe, Angel-Klauss, Angel-Rainer, Angel-devir. Todas materializam a figura da bailarina, coreógrafa e educadora Angel Vianna cujo nome transcende à pessoa e se expande paulatinamente ao longo do tempo em um legado. Talvez seja difícil distinguir figura e fundo. Angel e seu legado artístico-pedagógico se amalgamam no decorrer dos anos em uma forma pioneira de pensar o corpo na arte e na vida.

O convite inicial é sentir os pés no chão e, simultaneamente, se lançar ao voo do pensamento e da criação. O exercício é sobre atenção! Atentar à pele, ao outro, ao espaço e a si próprio. A metodologia criada por Angel Vianna promove a estruturação de um corpo firme e poroso afim de elaborar um pensamento em dança. O corpo é o grande filósofo, como ela mesma diz, e assim a bailarina não teme o desconhecido afirmando a diferença como presença, seja na dança, no teatro, na saúde ou na educação. Com o corpo atento, o pensamento de Angel nos impulsiona à matéria criativa, à invenção de mundos, a explorar o inexplorado e a vivenciar tantas possibilidades expressivas que somos incitados a produzir. Mais uma vez, retornamos ao laborioso exercício da percepção, de si e do outro, do corpo e do espaço, do movimento consciente.

Quando pequena, Maria Ângela Abras dançava escondida do pai. Hoje, Angel Vianna encarna um ícone da dança contemporânea brasileira cujo legado intensifica dança e pensamento, corpo e movimento, pele e sentido. O corpo aí já não é mais instrumento da dança, ele é a própria dança. O olhar fala dos ouvidos, da pele, do não dito. O toque emana a vibração de uma dança cujo rigor está na necessidade do gesto se pronunciar como se fosse a primeira vez. A memória corporal sempre nos relembra mais uma vez, o corpo sabe, aprende, mas também esquece, se perde para poder fincar os pés no chão e dançar de novo. O movimento irrompe por inadvertência na potência da descoberta e da criação. A escuta se dá no corpo como um todo e fabrica espaço. O corpo é infinito, não há fim, mas continuação.

Para Angel o chão é vivo e nos empurra. A educadora tem, teve e sempre terá a capacidade singular de formar corpos, corpos únicos, corpos potentes, livres, férteis, corpos dançantes, corpos que sabem cuidar de outros corpos. Assim, ela nos ensina sobre a força do espaço, sobre o peso dos corpos, sobre o fluxo e também a pausa. Agora, ela diria “pare um pouco perceba o seu invólucro (a pele) e libere suas tensões”. Outro dia, imagino que ela poderá dizer: “siga, dance e transforme suas tensões em pulsões”.